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Documento apoiado pela CNI e federações industriais de todo o país critica propostas em debate no Congresso e aponta impacto bilionário na economia e possível queda do PIB

A Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul (Fiems) assinou um manifesto divulgado nesta quinta-feira (9 de abril de 2026) em que manifesta preocupação com propostas em discussão no Congresso Nacional que tratam da redução da jornada semanal de trabalho e do possível fim da escala 6×1.

O documento, que reúne apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI), de outras 26 federações estaduais, além de 95 associações setoriais e 342 sindicatos industriais, defende que o debate sobre mudanças na carga horária é legítimo, mas sustenta que decisões dessa magnitude podem gerar efeitos significativos na economia brasileira, especialmente sobre custos empresariais, investimentos e geração de empregos formais.


Indústria teme impacto bilionário nos custos de contratação

Entre os principais argumentos apresentados no manifesto está a projeção de que uma eventual redução da jornada para 40 horas semanais poderia elevar os custos com empregados formais em até R$ 267 bilhões por ano, o que representaria aumento de até 7% na economia como um todo.

No setor industrial, a preocupação é ainda maior. O texto aponta que os custos com trabalhadores formais poderiam subir cerca de 11%, o equivalente a aproximadamente R$ 88 bilhões, pressionando empresas de diferentes segmentos e reduzindo a competitividade nacional.

A avaliação é de que a mudança não se restringiria ao número de horas trabalhadas, mas atingiria diretamente a estrutura produtiva e os custos de operação das empresas, com reflexos na capacidade de manter e ampliar vagas formais.


Simulações indicam risco de queda do PIB e perda de competitividade

O manifesto também menciona projeções econômicas que apontam possível impacto negativo no desempenho do país. De acordo com simulações atribuídas ao IBRE/FGV, a redução da jornada poderia resultar em queda de até 11,3% no PIB, ampliando a preocupação do setor industrial com o cenário econômico.

Além disso, o documento destaca que o Brasil já enfrenta desafios estruturais históricos para competir no mercado global, citando fatores como alto custo de produção, insegurança jurídica e entraves que dificultam a atração de investimentos.

A avaliação defendida pelas entidades é de que o país precisaria avançar em competitividade e produtividade antes de promover mudanças que possam elevar despesas trabalhistas de forma generalizada.


Produtividade estagnada entra no centro do debate

Outro ponto enfatizado no manifesto é a baixa produtividade do trabalho no Brasil, considerada um dos maiores gargalos do desenvolvimento econômico.

O documento aponta que, desde 1981, a produtividade brasileira cresceu apenas 0,2% ao ano, colocando o país na 100ª posição entre 189 nações em ranking da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Para o setor industrial, esse cenário reduz a capacidade do Brasil de absorver aumentos de custos sem gerar efeitos colaterais, como redução de empregos ou repasse de preços ao consumidor.


Manifesto cita que média nacional já é de 39 horas semanais

O texto também argumenta que, na prática, o país já opera com média de aproximadamente 39 horas semanais, devido a acordos coletivos, regras específicas de determinadas categorias e estratégias adotadas por empresas para adequar escalas de trabalho.

Nesse contexto, as entidades defendem que o limite atual de 44 horas semanais ainda seria importante por permitir flexibilização conforme a realidade de cada setor, empresa ou região, incluindo períodos de sazonalidade, como ocorre em atividades industriais e de serviços.


Setor alerta para reflexos em inflação, importações e mercado de trabalho

Além do aumento de custos, o manifesto afirma que a redução da jornada poderia provocar uma cadeia de impactos econômicos e sociais. Entre os riscos citados estão:

  • redução na geração de empregos formais
  • aumento do preço de produtos e serviços
  • pressão inflacionária
  • perda de competitividade industrial
  • crescimento das importações
  • fechamento de empresas e cortes de vagas
  • impacto no déficit fiscal
  • dificuldades para contratar mão de obra em um cenário apontado como próximo de “pleno emprego”
  • ampliação da dependência de programas sociais

Na avaliação apresentada, uma mudança estrutural sem planejamento poderia enfraquecer o ambiente de negócios e comprometer a sustentabilidade econômica de longo prazo.


Entidades criticam debate acelerado em ano eleitoral

O manifesto também chama atenção para o momento em que o tema avança no Congresso. O texto afirma que uma discussão dessa relevância não deveria ocorrer de forma acelerada em ano eleitoral, defendendo que o debate precisa ser aprofundado com participação ampla da sociedade e dos setores produtivos.

A posição das entidades é de que reformas estruturais na legislação trabalhista exigem construção baseada em evidências, diálogo técnico e responsabilidade econômica, para evitar decisões com efeitos desequilibrados sobre o mercado de trabalho.


Fim da escala 6×1 entra em pauta nacional e pressiona setores produtivos

A discussão sobre o fim da escala 6×1 tem ganhado espaço nacionalmente, especialmente em setores que dependem de trabalho contínuo, como indústria, comércio e serviços essenciais. Para as entidades industriais, qualquer mudança nesse modelo precisa considerar o impacto direto sobre produção, logística, custos operacionais e manutenção de empregos.

Ao assinar o manifesto, a Fiems se alinha à posição da indústria nacional de que mudanças na jornada devem ser conduzidas com cautela e base técnica, evitando que o aumento de custos se transforme em retração econômica e desemprego.


Indústria defende diálogo técnico e alerta para consequências

No encerramento do documento, as entidades reforçam que o debate é legítimo, mas defendem que decisões desse porte precisam fortalecer — e não fragilizar — a capacidade do país de gerar empregos.

O manifesto sustenta que reduzir a jornada de trabalho, sem contrapartidas de produtividade e sem análise de impacto econômico, pode resultar em perda de vagas e aumento da inflação, atingindo diretamente o poder de compra da população e a estabilidade do mercado formal.