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Especialistas discutem proteção do Sistema Paraguai–Paraná, retomada do Comitê Nacional de Zonas Úmidas e medidas para enfrentar mudanças climáticas e obras de infraestrutura

A preservação do Pantanal e do corredor ecológico formado pelo Sistema Paraguai–Paraná foi um dos principais temas debatidos durante a COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS), realizada em Campo Grande, na terça-feira (25 de março). O encontro reuniu especialistas ambientais e representantes do governo federal para discutir estratégias voltadas ao fortalecimento da governança das áreas úmidas, consideradas essenciais para a manutenção de habitats e rotas migratórias de espécies que atravessam fronteiras nacionais.

O debate reforçou que o futuro das espécies migratórias depende diretamente da conectividade ambiental entre diferentes ecossistemas da Bacia do Prata, uma das regiões hidrográficas mais relevantes da América do Sul.


Sistema Paraguai–Paraná é considerado corredor estratégico para biodiversidade

O Sistema Paraguai–Paraná foi apontado como um eixo fundamental para a conservação ambiental por funcionar como um corredor natural que sustenta áreas úmidas interligadas, garantindo abrigo, alimentação e reprodução para diversas espécies migratórias.

A dinâmica do Pantanal, marcada por ciclos de cheia e seca, influencia diretamente o equilíbrio ecológico dessa rede hídrica. Por isso, especialistas destacaram que ações isoladas em um único território são insuficientes para preservar a biodiversidade, sendo necessária uma articulação coordenada entre países e instituições.

Nesse contexto, o evento destacou a importância de alinhar compromissos internacionais com a realidade local de comunidades que vivem nessas regiões, como ribeirinhos, povos indígenas e populações tradicionais.


Painel discute governança e reforça papel das áreas úmidas na proteção de espécies

O painel foi organizado pela Wetlands International Brasil, em parceria com a Mupan (Mulheres em Ação no Pantanal). Durante o encontro, foi defendida a necessidade de políticas públicas mais consistentes para áreas úmidas, já que esses ambientes funcionam como reguladores naturais do clima, armazenam água e reduzem os impactos de eventos extremos.

Além da relevância ecológica, o debate destacou que a proteção dessas áreas também possui impacto direto sobre atividades econômicas tradicionais, como pesca artesanal, turismo de natureza e formas sustentáveis de produção rural.

A discussão também reforçou que áreas úmidas não devem ser tratadas como zonas improdutivas, mas como estruturas naturais estratégicas para garantir qualidade de vida e segurança hídrica.


Retomada do Comitê Nacional de Zonas Úmidas marca avanço institucional

Um dos pontos centrais do encontro foi a retomada oficial do Comitê Nacional de Zonas Úmidas (CNZU). O comitê havia sido desestruturado nos últimos anos e voltou a operar após mobilização de organizações da sociedade civil e apoio técnico de instituições como o ICMBio.

O CNZU funciona como um espaço de diálogo entre governo, cientistas e entidades ambientais, contribuindo para que decisões públicas levem em consideração a complexidade de biomas como o Pantanal, que enfrenta desafios recorrentes relacionados a queimadas, escassez hídrica e mudanças no regime de chuvas.

A reativação do comitê é considerada estratégica porque permite integrar conhecimento técnico e participação social em decisões voltadas à conservação e gestão de áreas úmidas.


Programa Corredor Azul é apresentado como modelo de articulação regional

Durante o debate, foi apresentada a experiência do Programa Corredor Azul, descrita como referência de cooperação ambiental entre Brasil e Argentina. A iniciativa busca fortalecer a articulação regional em áreas úmidas, promovendo ações integradas para conservação e monitoramento ambiental.

O programa foi citado como exemplo de que a proteção de ecossistemas interligados exige governança compartilhada e planejamento de longo prazo, especialmente em bacias hidrográficas transfronteiriças, onde impactos ambientais podem se espalhar rapidamente entre diferentes territórios.


Mudanças climáticas e grandes obras aumentam pressão sobre o Pantanal

O painel também apontou a necessidade de acelerar o mapeamento das zonas úmidas brasileiras, considerado um passo essencial para identificar áreas prioritárias de proteção e evitar danos irreversíveis.

Especialistas alertaram que grandes projetos de infraestrutura e a intensificação das mudanças climáticas ampliam o risco de degradação do Pantanal e de outros ecossistemas conectados ao Sistema Paraguai–Paraná. A redução da disponibilidade hídrica, associada a períodos prolongados de seca e ao aumento de incêndios, tem potencial de comprometer o equilíbrio ambiental e ameaçar espécies que dependem diretamente dessas rotas ecológicas.

Esse cenário reforça a urgência de políticas de conservação mais robustas e integradas, com monitoramento contínuo e cooperação internacional.


Integração entre Ramsar e Convenção de Espécies Migratórias é apontada como caminho

Outro ponto levantado no debate foi a necessidade de maior articulação entre a Convenção de Ramsar, voltada à proteção de áreas úmidas, e a Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS). A integração entre os dois tratados internacionais foi considerada essencial para garantir que habitats críticos sejam preservados de forma permanente.

A proposta é que o Brasil avance em políticas capazes de assegurar não apenas a conservação da biodiversidade, mas também a manutenção dos serviços ambientais fornecidos pelas áreas úmidas, como controle de enchentes, manutenção de rios navegáveis e equilíbrio climático regional.


Pantanal na COP15 reforça papel estratégico do Brasil na agenda ambiental

A centralidade do Pantanal na COP15 reforça o peso ambiental e geopolítico do Brasil na agenda internacional de conservação. A região, reconhecida como um dos maiores sistemas de áreas úmidas do planeta, é considerada vital não apenas para o país, mas para toda a América do Sul, devido ao seu papel no equilíbrio hídrico e climático.

O debate em Campo Grande evidencia que a preservação do Pantanal não é apenas uma pauta ecológica, mas uma questão de segurança ambiental, econômica e social, com impacto direto sobre comunidades locais e sobre a biodiversidade que depende do Sistema Paraguai–Paraná para sobreviver e migrar.