Mesmo com produção recorde e expansão bilionária da LHG Mining, repasses da CFEM caem quase pela metade em quatro anos e colocam em risco investimentos em saúde, educação e infraestrutura
A mineração vive um momento de forte expansão em Corumbá, impulsionada principalmente pela LHG Mining, que lidera a extração de minério de ferro na região. No entanto, em um movimento que contraria a lógica econômica esperada, a arrecadação municipal proveniente dos royalties da atividade mineral caiu drasticamente nos últimos anos, pressionando as contas públicas e levantando questionamentos sobre o retorno efetivo da exploração mineral para a cidade.
Dados da Prefeitura de Corumbá, com base em informações da Agência Nacional de Mineração (ANM), mostram que a arrecadação total das quatro mineradoras atuantes no município despencou de R$ 39,479 milhões em 2022 para cerca de R$ 19 milhões em 2025, uma redução próxima de 50%. Apenas na comparação entre 2024 e 2025, a queda foi ainda mais expressiva: 41,2%, o que representa uma perda estimada de R$ 13,3 milhões em apenas um ano.
O cenário, além de comprometer o planejamento orçamentário do município, gera preocupação sobre a capacidade de Corumbá acompanhar os impactos diretos e indiretos da mineração em expansão acelerada.
Queda continua em 2026 e abril acende sinal vermelho
A tendência de retração segue em 2026. No acumulado entre janeiro e abril, o município arrecadou R$ 4,329 milhões, valor 44,7% menor do que o registrado no mesmo período de 2025, quando a arrecadação chegou a R$ 7,828 milhões.
O mês de abril chamou atenção de forma especial: a receita caiu para apenas R$ 452 mil, pouco mais de um quarto do total arrecadado em abril do ano anterior, quando Corumbá recebeu R$ 1,676 milhão.
Mesmo com esse declínio recente, o município acumulou mais de R$ 120 milhões em receitas de mineração entre 2021 e abril de 2026, reforçando o peso da atividade mineral no orçamento local — e o tamanho do impacto quando os repasses recuam.
CFEM: como funciona a distribuição e por que isso importa
A arrecadação citada é referente à CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais), mecanismo conhecido popularmente como royalty da mineração. Pela legislação vigente, aproximadamente 60% do valor arrecadado é destinado ao município produtor, enquanto outra parte significativa vai para o governo estadual, especialmente vinculada à chamada compensação ambiental.
Na prática, a CFEM deveria atuar como um mecanismo de equilíbrio: compensar financeiramente municípios que enfrentam desgaste estrutural e ambiental causado por operações intensivas, como transporte pesado, poluição atmosférica e impactos no território.
A redução abrupta, portanto, não representa apenas um problema contábil. Ela afeta diretamente a capacidade do município de manter serviços básicos e enfrentar os efeitos da mineração sobre a cidade e suas comunidades.
Produção cresce, mas arrecadação não acompanha o ritmo
O contraste entre produção e arrecadação é o ponto central da preocupação. A LHG Mining responde por cerca de 80% da extração mineral em Corumbá e prevê para 2026 um aumento de 33,3% na produção, saltando de 12 milhões para 16 milhões de toneladas.
Além disso, a empresa anunciou no fim de 2025 um plano de expansão ainda mais ambicioso, com investimentos estimados em aproximadamente R$ 4 bilhões, projetando elevar a capacidade para até 25 milhões de toneladas anuais. O objetivo seria posicionar a mineradora entre as maiores do Brasil.
Esse avanço é considerado acelerado. A LHG surgiu em 2022, após a aquisição da Mineração Corumbaense Reunida (MCR) pelo grupo J&F Investimentos. Na época, a produção girava em torno de 2,5 milhões de toneladas.
Mesmo com a escalada produtiva e faturamento anual estimado entre R$ 2 bilhões e R$ 5 bilhões, a arrecadação municipal ligada à mineração não reflete esse crescimento, criando um descompasso que vem sendo tratado como um risco estrutural para o município.
Outras mineradoras puxam arrecadação pontual e distorcem cenário
Outro dado relevante é que, apesar da predominância da LHG no volume extraído, a arrecadação recente tem sido liderada por outras empresas. Em abril, por exemplo, a maior parte da receita foi atribuída à Vetria Mineração, responsável por mais de 90% do recolhimento do mês, ao lado de mineradoras como MMX e 3A Mining.
No total, a receita bruta da CFEM em abril somou R$ 756.316 mil.
Essa diferença entre volume de produção e participação na arrecadação intensifica as dúvidas sobre os critérios de declaração, classificação fiscal e rastreabilidade dos dados que determinam quanto efetivamente retorna ao município.
Perdas já afetam investimentos e ampliam pressão sobre serviços públicos
A queda de arrecadação não é apenas uma projeção futura: ela já representa impacto direto no orçamento municipal. Com a perda registrada em 2025, Corumbá deixou de contar com cerca de R$ 13 milhões, valor que poderia ter sido aplicado em áreas essenciais como saúde, educação e infraestrutura urbana.
Em municípios com forte presença minerária, esses recursos costumam ser estratégicos para compensar o desgaste provocado pela atividade: manutenção de vias, recuperação de pavimentação danificada por tráfego pesado, reforço de atendimento médico e investimentos em prevenção de impactos ambientais.
Com repasses menores, a administração municipal enfrenta mais dificuldade para atender demandas que crescem justamente junto com o avanço da produção mineral.
Compensação ambiental sob controle estadual limita reação do município
Outro fator que aumenta a complexidade do problema é que parte dos recursos vinculados à compensação ambiental é administrada pelo governo estadual. Isso reduz a margem de atuação direta do município em ações como recuperação de áreas degradadas, mitigação de danos ambientais e investimentos em estrutura urbana afetada pela logística minerária.
A prefeitura afirma manter diálogo com o Estado para tentar encontrar alternativas que garantam maior previsibilidade e transparência na aplicação desses recursos, especialmente em um cenário em que os impactos urbanos se acumulam.
Empregos existem, mas efeito econômico local é menor do que o esperado
Apesar do aumento de operações, o retorno econômico indireto também tem sido considerado limitado. A LHG mantém aproximadamente 2 mil postos de trabalho no município, porém parte relevante dessa mão de obra seria formada por trabalhadores de fora, que não se fixam permanentemente em Corumbá com suas famílias.
Esse modelo reduz o chamado “efeito multiplicador” na economia local, já que parte do consumo e circulação de renda não permanece na cidade. Com menos famílias residindo de forma contínua, o impacto positivo em setores como comércio, serviços e habitação se torna menor do que o esperado para uma operação industrial desse porte.
Além disso, relatos sobre dificuldades relacionadas a benefícios trabalhistas e permanência na região reforçam a percepção de que o dinamismo econômico local pode estar abaixo do potencial que uma atividade bilionária costuma gerar.
Poeira, desgaste urbano e custos crescentes agravam cenário social
Ao mesmo tempo em que a arrecadação diminui, os custos urbanos associados à mineração continuam presentes. O tráfego diário de caminhões e a movimentação de minério geram poeira constante, afetando principalmente crianças e idosos, além de comprometer áreas próximas a escolas e regiões residenciais.
A degradação de sinalizações, vias e estruturas públicas aumenta os gastos com manutenção e torna a cidade mais dependente de recursos que, paradoxalmente, vêm caindo.
Esse cenário amplia a pressão sobre o orçamento municipal: mais demanda por manutenção, mais riscos ambientais e sanitários, e menos recursos disponíveis para responder com eficiência.
Fiscalização, divergências fiscais e falta de acesso a dados detalhados
A ANM informou que acompanha o recolhimento da CFEM de forma contínua e que eventuais indícios de irregularidades podem ser apurados conforme procedimentos técnicos, levando em conta fatores como risco de inadimplência e divergências de valores declarados.
Entretanto, a autarquia também apontou que Corumbá não possui acordo de cooperação técnica vigente com a agência, o que limita a atuação conjunta e o acompanhamento direto das fiscalizações por parte do município.
Além disso, a prefeitura afirma ter identificado possível mudança no uso de códigos fiscais, como o CFOP (Código Fiscal de Operações e Prestações), o que poderia impactar diretamente o índice de participação do município e, consequentemente, a arrecadação final.
Esse tipo de alteração, caso confirmada, pode modificar a forma como a movimentação comercial é registrada e como a compensação financeira é calculada, afetando diretamente os repasses recebidos pelo município.
Risco para o futuro: produção recorde com retorno menor ao município
O caso de Corumbá revela um dilema recorrente em regiões mineradoras: enquanto a produção cresce e os investimentos aumentam, o retorno financeiro para a cidade nem sempre acompanha na mesma proporção.
A combinação entre queda nos royalties, aumento do desgaste urbano e crescimento da atividade coloca o município diante de um desafio estratégico. Sem um fluxo consistente de arrecadação, a expansão mineral pode resultar em aumento de impactos e custos sociais, sem contrapartida financeira suficiente para garantir equilíbrio.
Com projeções de produção ainda maiores para os próximos anos e investimentos bilionários previstos, o debate sobre transparência fiscal, rastreabilidade dos repasses e fortalecimento da fiscalização tende a ganhar ainda mais força em Corumbá, especialmente diante da dependência histórica do município em relação à mineração e ao Rio Paraguai como eixo logístico da região.
Fonte: https://www.campograndenews.com.br/economia/mineracao-cresce-em-corumba-mas-repasses-caem-e-pressionam-cofres-publicos