Uma molécula pesquisada no Brasil há quase 30 anos voltou ao centro das atenções da ciência mundial ao apresentar potencial para auxiliar na recuperação de movimentos em pessoas com lesões graves na medula espinhal. Trata-se da polilaminina, uma substância derivada da laminina — proteína produzida naturalmente pelo organismo — desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
No início de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da fase 1 dos estudos clínicos com a substância, marco fundamental no caminho para um possível tratamento futuro.
🔬 O que é a polilaminina e por que ela chama atenção
A polilaminina é um composto obtido a partir da laminina, proteína abundante durante o desenvolvimento embrionário e essencial para a organização dos tecidos e o crescimento celular. No sistema nervoso, a laminina tem papel relevante na regeneração dos axônios, estruturas dos neurônios que são rompidas em lesões medulares.
Em laboratório, a polilaminina atua como uma espécie de suporte estrutural, criando um ambiente favorável para que as células nervosas lesionadas possam se reorganizar e voltar a crescer — efeito observado de forma consistente em modelos experimentais.
🧪 Resultados iniciais animam a comunidade científica
Antes da autorização para testes em humanos, a substância foi avaliada em células isoladas e em modelos animais, com resultados repetidamente positivos. Em seguida, um estudo preliminar envolveu oito pacientes com lesões medulares completas, consideradas as mais graves e com baixa chance de recuperação espontânea.
Nesse grupo, parte dos pacientes apresentou recuperação parcial dos movimentos e outros tiveram melhora significativa, índice muito superior ao observado historicamente em casos semelhantes tratados apenas com cirurgia, fisioterapia e medicamentos convencionais. Apesar de promissores, os dados ainda são iniciais e não passaram por todas as etapas de validação científica.
🏥 Como funciona a aplicação do tratamento
A polilaminina não é uma proteína totalmente sintética. Para manter uma estrutura próxima à humana, a laminina utilizada no processo é extraída de placentas doadas após o parto, material naturalmente rico nessa proteína. Após a purificação, a substância é preparada no próprio centro cirúrgico, no momento da aplicação.
Durante o procedimento, a polilaminina é aplicada diretamente na região da medula lesionada, formando uma rede molecular que auxilia na regeneração dos axônios. O método ainda está em avaliação rigorosa quanto à segurança e tolerância.
📊 Novas fases dos testes clínicos já estão definidas
A fase 1, recém-autorizada, irá avaliar a segurança do tratamento em cinco pacientes com lesão medular completa na região torácica. A aplicação deverá ocorrer até 72 horas após o trauma, geralmente durante a cirurgia de emergência.
Se os resultados forem positivos, o estudo avançará para as fases 2 e 3, que irão analisar a eficácia do tratamento em um número maior de pacientes e com critérios ainda mais rigorosos. Somente após concluir todas essas etapas a Anvisa poderá avaliar a liberação do medicamento para uso amplo.
⚠️ Uso experimental ainda exige cautela
Mesmo sem liberação comercial, a polilaminina já vem sendo utilizada de forma excepcional por meio de decisões judiciais, o que levanta alertas na comunidade científica. O uso fora de protocolos de pesquisa dificulta o controle de dados, a identificação de possíveis efeitos adversos e a comprovação definitiva da eficácia.
Especialistas ressaltam que, em alguns casos, pacientes com lesão medular podem apresentar melhora espontânea ao longo do tempo, o que exige cautela na interpretação de resultados iniciais.
🔎 Um avanço promissor, mas ainda em construção
A polilaminina representa um potencial avanço inédito no tratamento de lesões medulares, área que há décadas carece de soluções capazes de restaurar movimentos de forma consistente. No entanto, o caminho até um tratamento seguro, eficaz e amplamente disponível ainda depende de estudos clínicos extensos e validação científica rigorosa.
Até lá, a molécula segue como uma das mais promissoras apostas da ciência brasileira na busca por novas possibilidades de recuperação para pacientes com paralisia.
Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5y3zvv822jo