Pesquisa internacional aponta redução na renovação das águas subterrâneas do Pantanal; secas prolongadas, incêndios e mudanças no uso do solo estão entre os principais fatores identificados
Pantanal enfrenta novo desafio ambiental ligado às reservas subterrâneas de água
Um estudo científico publicado nesta semana na revista especializada Science Advances revelou um sinal preocupante para o futuro hídrico do Pantanal. Considerado uma das maiores áreas úmidas do planeta e fundamental para o equilíbrio ambiental de Mato Grosso do Sul, o bioma está registrando uma redução na capacidade de renovação de suas reservas subterrâneas de água.
A pesquisa analisou o comportamento dos aquíferos brasileiros entre os anos de 2002 e 2023 e identificou que o Aquífero Pantanal figura entre os sistemas mais impactados pelas transformações climáticas e ambientais observadas nas últimas décadas.
Os resultados reforçam alertas que vêm sendo emitidos por especialistas após uma sequência de eventos extremos registrados na região, incluindo períodos de estiagem severa, queimadas históricas e alterações no uso do solo.
Menos água infiltrando no solo compromete a renovação dos reservatórios
Os pesquisadores identificaram uma redução significativa no processo conhecido como recarga hídrica, mecanismo natural responsável por permitir que a água das chuvas infiltre no solo e abasteça os reservatórios subterrâneos.
Quando esse processo é prejudicado, os aquíferos passam a receber menos água do que o necessário para sua renovação, reduzindo gradativamente sua capacidade de armazenamento e comprometendo o equilíbrio do sistema hidrológico.
Segundo o levantamento, a diminuição da recarga está associada principalmente à combinação de três fatores: secas prolongadas, expansão de áreas de pastagem e aumento da frequência de incêndios florestais.
Esses fenômenos alteram as características físicas do solo, tornando-o menos permeável e dificultando a infiltração da água da chuva.
Queimadas históricas agravaram o cenário no bioma
O estudo destaca que a situação ficou mais evidente durante os anos de 2019 e 2020, período em que o Pantanal enfrentou uma das maiores crises ambientais de sua história recente.
As queimadas que devastaram milhões de hectares do bioma deixaram impactos que vão além da vegetação e da fauna. Especialistas apontam que o fogo modifica propriedades do solo, reduz sua capacidade de absorção de água e interfere diretamente nos processos naturais de recarga dos aquíferos.
Em regiões onde os incêndios se repetem com frequência, os efeitos podem persistir por anos, afetando a disponibilidade hídrica subterrânea e tornando os ecossistemas mais vulneráveis aos períodos de estiagem.
Pressão humana e mudanças climáticas atuam de forma conjunta
Os pesquisadores destacam que a perda de capacidade de renovação dos aquíferos não pode ser atribuída a um único fator.
A análise aponta que a redução dos estoques subterrâneos de água resulta da interação entre mudanças climáticas e atividades humanas. Entre os elementos observados estão a expansão agropecuária, o aumento da irrigação em determinadas regiões, a ocorrência frequente de secas e a utilização crescente de recursos hídricos subterrâneos.
Essa combinação cria um cenário de pressão contínua sobre os sistemas aquíferos, especialmente em áreas ambientalmente sensíveis como o Pantanal.
Impactos podem atingir Corumbá e toda a região pantaneira
A preservação das águas subterrâneas possui importância estratégica para municípios inseridos no bioma pantaneiro, como Corumbá e Ladário.
Além de contribuir para o equilíbrio dos ecossistemas, os aquíferos desempenham papel fundamental na manutenção de nascentes, córregos, áreas alagadas e no abastecimento hídrico durante períodos de seca.
Especialistas alertam que alterações prolongadas na capacidade de recarga podem gerar reflexos ambientais e econômicos ao longo dos próximos anos, afetando atividades diretamente ligadas ao Pantanal, como o turismo ecológico, a pesca, a pecuária extensiva e a conservação da biodiversidade.
Embora os impactos não sejam imediatos para a população, o enfraquecimento dos reservatórios subterrâneos representa um indicador importante sobre a saúde ambiental do bioma e sua capacidade de enfrentar eventos climáticos extremos.
Outros aquíferos brasileiros também apresentam sinais de esgotamento
Além do Aquífero Pantanal, o estudo identificou indícios de redução da recarga ou esgotamento em outros importantes sistemas subterrâneos do país.
Entre eles estão o Aquífero Guarani, considerado um dos maiores reservatórios de água doce do mundo, além dos aquíferos Serra Geral e Urucuia, que abastecem diferentes regiões brasileiras.
Os pesquisadores estimam que apenas 12% da precipitação anual registrada nas áreas de afloramento dos aquíferos brasileiros consegue efetivamente alcançar os reservatórios subterrâneos.
O dado reforça a necessidade de monitoramento contínuo e de políticas voltadas à conservação dos recursos hídricos, especialmente em regiões que enfrentam eventos climáticos cada vez mais intensos e frequentes.
