Uma onça-pintada jovem voltou a chamar a atenção de moradores da área rural de Corumbá, no oeste de Mato Grosso do Sul, após ser registrada por câmeras de segurança circulando nas proximidades de uma propriedade. O novo avistamento ocorre cerca de dois meses depois da captura e translocação de outra onça, conhecida como Corumbella, que havia se aproximado de residências e atacado animais domésticos.
O novo registro foi feito durante o fim de semana, em uma propriedade localizada às margens da Rodovia Ramon Gomes, na estrada de acesso à fronteira com a Bolívia. A situação mobilizou a Polícia Militar Ambiental (PMA) e o Instituto Homem Pantaneiro (IHP), que passaram a acompanhar o deslocamento do animal.
Até o momento, não há registro de ataques ou incidentes envolvendo a nova onça, e as autoridades ambientais não consideram necessária uma captura imediata.
Nova aparição já era considerada possível
A presença de outro felino na região não é considerada inesperada pelos órgãos ambientais. A onça-pintada é uma espécie de comportamento territorialista, e a saída de um indivíduo de determinada área pode abrir espaço para que outro animal passe a utilizar o mesmo território.
A região onde o novo animal foi visto tem características rurais, mas fica relativamente próxima da área urbana de Corumbá. Há pelo menos duas famílias vivendo nas proximidades dos locais onde as duas onças foram registradas.
A frequência desses encontros reforça a importância do acompanhamento permanente da fauna silvestre em áreas de transição entre o ambiente natural e propriedades rurais.
Câmeras serão usadas para acompanhar o comportamento do animal
Após o chamado de moradores, equipes da PMA estiveram na região e realizaram vistorias nas proximidades da propriedade. Embora o animal não tenha sido localizado durante a ação, o trabalho de monitoramento foi ampliado.
Com apoio do Instituto Homem Pantaneiro, câmeras do tipo trap, utilizadas para registrar a movimentação da fauna, foram instaladas na região.
As imagens das câmeras de segurança dos moradores também serão analisadas pelos técnicos. O objetivo é tentar identificar melhor o animal e, principalmente, compreender como ele está utilizando o território, em quais horários aparece e se há sinais de comportamento de aproximação frequente das residências.
Essas informações são fundamentais para definir as próximas medidas. Um único avistamento, por si só, não significa necessariamente que o animal esteja habituado à presença humana.
PMA orienta moradores a redobrar os cuidados
Enquanto o monitoramento continua, a principal recomendação das autoridades é evitar situações que possam atrair a onça para perto das casas.
Moradores da região devem:
- manter cães, gatos e outros animais domésticos protegidos, principalmente durante a noite e no início da manhã;
- evitar deixar restos de comida ou lixo expostos;
- não oferecer alimentos à fauna silvestre;
- comunicar às autoridades ambientais novos avistamentos;
- evitar tentar se aproximar, perseguir ou encurralar o animal.
O cuidado com restos de alimentos é especialmente importante porque o descarte inadequado pode funcionar como uma espécie de “ceva indireta”, criando condições para que animais silvestres associem propriedades humanas à disponibilidade de comida.
Para propriedades rurais e residências próximas a áreas de mata, esse tipo de precaução ganha ainda mais relevância durante períodos em que a oferta natural de alimento pode sofrer alterações.
Por enquanto, nova captura não está prevista
Apesar da preocupação dos moradores, a possibilidade de captura da nova onça não é tratada como uma medida imediata.
A estratégia adotada pelas equipes ambientais depende da evolução do comportamento do animal. Técnicas de afugentamento, como o uso de refletores luminosos, podem ser empregadas para estimular o felino a se afastar das áreas ocupadas por pessoas.
A captura e a translocação passam a ser consideradas quando outras medidas não apresentam resultado ou quando o comportamento do animal indica risco maior de conflito com moradores e animais domésticos.
O fato de a nova onça ser jovem também é uma informação relevante, embora as imagens disponíveis ainda não permitam determinar com segurança o sexo do animal ou se ele está acompanhado por outro indivíduo.
O que aconteceu com a onça Corumbella?
A nova aparição ocorre pouco tempo depois de um caso que teve grande repercussão em Corumbá.
A onça-pintada que recebeu o nome de Corumbella foi capturada após se aproximar de residências e ser relacionada ao desaparecimento e ataque de animais domésticos na região do Canal do Tamengo.
O animal, uma fêmea jovem de aproximadamente quatro anos e 72 quilos, vinha sendo monitorado durante cerca de um ano antes que os órgãos ambientais concluíssem pela necessidade de intervenção.
Depois da captura, Corumbella passou por avaliação veterinária e foi translocada para uma área remota da Serra do Amolar, no Pantanal. A escolha teve como objetivo permitir que o animal permanecesse em um ambiente adequado, com disponibilidade de alimento e possibilidade de convivência com outros indivíduos da espécie.
A onça continua sendo acompanhada por meio de colar com GPS, permitindo que especialistas monitorem seus deslocamentos após a soltura.
Por que as onças estão aparecendo perto das propriedades?
A presença de grandes felinos em áreas próximas às residências precisa ser analisada dentro do contexto ambiental do Pantanal, especialmente durante a transição para o período de seca.
A redução da disponibilidade de água e as alterações na oferta de presas podem modificar a movimentação de animais silvestres. As queimadas e incêndios florestais também provocam impactos sobre o habitat, podendo alterar rotas utilizadas pela fauna e a distribuição dos recursos naturais.
Em Corumbá, essa relação é particularmente importante. O município está inserido em uma das regiões mais relevantes do Pantanal e possui uma extensa interface entre áreas preservadas, propriedades rurais e espaços ocupados pela população.
Assim, o aparecimento de uma onça nas proximidades de uma residência não deve ser interpretado isoladamente. O fenômeno também evidencia os efeitos da pressão sobre os ambientes naturais e da proximidade crescente entre atividades humanas e áreas utilizadas pela fauna.
Monitoramento será decisivo para os próximos passos
O caso ainda está em fase de acompanhamento. A prioridade das equipes ambientais é descobrir se a onça continuará utilizando as proximidades das propriedades ou se o registro foi apenas uma passagem ocasional.
A resposta a essa questão será determinante para definir as próximas medidas. Se o animal permanecer afastado das pessoas e não apresentar comportamento de aproximação recorrente, o monitoramento pode ser suficiente. Caso haja insistência na aproximação, ataques a animais domésticos ou outros sinais de risco, novas estratégias poderão ser avaliadas.
Para os moradores da região, o momento exige atenção, mas também cautela. A orientação das autoridades é manter os animais domésticos protegidos, eliminar possíveis fontes de alimento e evitar qualquer tentativa de contato com o felino.
E a nova onça não é o único sinal de que a fauna do Pantanal está mudando seus deslocamentos: o período de seca e os impactos das queimadas podem influenciar diretamente a movimentação de animais silvestres na região. O monitoramento nas próximas semanas deverá mostrar se o felino apenas passou pela área ou se pretende fazer daquele território uma nova rota de circulação.
