16 min 8 minutos

Juros elevados, crédito restrito, consumo pressionado e mudança nos hábitos dos consumidores formam a combinação que empurra empresas tradicionais para a recuperação judicial ou extrajudicial

O fechamento de lojas, a redução de estoques e as demissões deixaram de ser problemas restritos a pequenos comércios de bairro. Em 2026, grandes marcas que durante décadas fizeram parte da rotina dos brasileiros passaram a enfrentar uma disputa decisiva pela sobrevivência financeira. Casas Bahia, Marabraz, Tok&Stok, Mobly, Habib’s, GPA, Braskem e outras empresas recorreram à Justiça ou negociaram diretamente com credores para reorganizar dívidas e manter as operações.

O movimento não representa, necessariamente, que todas essas companhias estejam falidas. A recuperação judicial é um mecanismo criado para permitir que empresas em dificuldade suspendam determinadas cobranças, apresentem um plano aos credores e tentem preservar a atividade econômica. Já a recuperação extrajudicial ocorre por meio de um acordo negociado com parte dos credores, posteriormente submetido à homologação judicial. A falência é uma etapa diferente, associada à liquidação dos ativos e ao encerramento da empresa.

Mesmo com diferenças entre os casos, especialistas identificam um padrão: o dinheiro ficou mais caro, o crédito se tornou mais seletivo e o consumidor passou a comparar preços em poucos segundos, muitas vezes com empresas de outros países. Para varejistas que dependem de lojas grandes, estoques elevados e vendas parceladas, a combinação pode comprometer rapidamente o caixa.

A notícia Continua Após o Anúncio

O crédito caro que estrangula o varejo

O Brasil encerrou 2025 com 5.680 empresas em recuperação judicial, segundo levantamento da consultoria RGF citado pelo UOL. O número representou alta de 24,3% em um ano. No quarto trimestre, 510 companhias apresentaram novos pedidos, acumulando aproximadamente R$ 40 bilhões em dívidas. A Selic em patamar elevado e a dificuldade de acesso a financiamentos foram apontadas como fatores centrais para a deterioração financeira.

A pressão é especialmente forte sobre os segmentos de móveis, eletrodomésticos e eletrônicos. São setores nos quais o consumidor costuma depender de financiamento, enquanto as empresas precisam manter estoques volumosos e uma ampla estrutura física. Quando as vendas diminuem, o custo de aluguel, pessoal, logística e juros continua correndo, reduzindo a margem de manobra.

“Estamos em uma segunda fase dessa transformação: a primeira colocou em questão o modelo tradicional de loja física; a atual testa a sustentabilidade financeira dos negócios”, afirmou Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores, em entrevista ao g1.

A transformação digital também elevou a concorrência. Plataformas como Shein, Shopee, Temu, Amazon e Mercado Livre permitem comparar preços, prazos e condições de pagamento em uma escala que as redes tradicionais nem sempre conseguem acompanhar. O consumidor, que antes comparava algumas lojas de uma mesma cidade, agora pode consultar centenas de vendedores em poucos minutos.

A notícia Continua Após o Anúncio

Casas Bahia fecha quase 300 lojas

O caso mais emblemático da nova onda de reestruturações é o da Casas Bahia. A companhia pediu recuperação judicial em agosto de 2026, depois de já ter recorrido, em 2024, a uma recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas.

O novo processo envolve uma dívida reportada de R$ 17,3 bilhões. A empresa também registrou prejuízo de aproximadamente R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre e confirmou o fechamento de 298 lojas. Cerca de 3 mil funcionários foram demitidos no processo de redução da estrutura.

A varejista atribuiu a deterioração financeira ao ambiente de juros elevados, à restrição de crédito, ao aumento das despesas financeiras e à pressão sobre o consumo e o capital de giro. Nos primeiros dias após o pedido, a empresa ainda enfrentou retenções de recebíveis, bloqueios e disputas com instituições financeiras, o que aumentou a preocupação com a manutenção do caixa operacional.

O desafio da companhia é preservar o abastecimento das lojas e, ao mesmo tempo, recuperar a confiança de fornecedores e consumidores. Em uma recuperação judicial, a empresa precisa continuar vendendo para gerar caixa, mas os fornecedores podem exigir pagamentos antecipados ou reduzir os limites de crédito diante do risco de inadimplência.

Marabraz e Toky revelam a crise dos móveis

No segmento de móveis e decoração, a crise atingiu empresas com forte presença histórica no país. As Lojas Marabraz protocolaram pedido de recuperação judicial envolvendo dívidas estimadas em cerca de R$ 140 milhões. Além dos efeitos dos juros altos e da queda nas vendas, a companhia enfrenta uma disputa societária entre integrantes da família controladora.

A briga afetou garantias oferecidas a instituições financeiras e dificultou o acesso a novos empréstimos. Sem capital para recompor os estoques, a empresa perdeu capacidade de venda. O site saiu do ar em 2025, e quase todas as lojas físicas foram fechadas, segundo informações reunidas por O Globo e pela CNN Brasil.

A Tok&Stok e a Mobly, reunidas no Grupo Toky, também recorreram à recuperação judicial em maio de 2026. O passivo informado supera R$ 1,1 bilhão. A companhia reúne mais de 60 lojas e cerca de 2 mil empregados, mas vem enfrentando forte retração nas vendas e dificuldades de abastecimento.

No segundo trimestre, o grupo registrou prejuízo de R$ 232,7 milhões, ante R$ 88,9 milhões no mesmo período do ano anterior. As vendas caíram 32%. A interrupção do fornecimento provocada pela insegurança dos parceiros comerciais aumentou os prazos de entrega e elevou o volume de cancelamentos, agravando o problema operacional.

Americanas ainda tenta reconstruir a operação

A Americanas permanece como um dos casos mais conhecidos do país. A companhia entrou em recuperação judicial em janeiro de 2023, após a revelação de inconsistências contábeis que posteriormente foram associadas a uma fraude bilionária.

É importante separar os números: o processo envolvia mais de R$ 42 bilhões em dívidas, enquanto reportagens recentes citam uma fraude estimada em aproximadamente R$ 25 bilhões. A diferença entre os valores é relevante porque dívida total e fraude contábil não são a mesma coisa.

Desde então, a empresa reduziu sua presença física, fechou lojas, vendeu ativos e recebeu aportes de seus principais acionistas. Em março de 2026, a companhia pediu o encerramento de sua recuperação judicial, numa tentativa de seguir a operação fora da supervisão direta do processo. O encerramento, no entanto, não apaga os efeitos da crise nem devolve automaticamente à companhia o tamanho que ela tinha antes do escândalo.

GPA negocia dívida de R$ 4,5 bilhões

O Grupo Pão de Açúcar adotou uma estratégia diferente. Em março de 2026, a companhia anunciou um plano de recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 4,5 bilhões em obrigações financeiras. O acordo foi firmado com os principais credores e submetido à Justiça de São Paulo.

O objetivo é alongar prazos e reorganizar os compromissos sem interromper as operações dos supermercados. Ao contrário de empresas que dependem fortemente da venda de bens duráveis, o GPA atua em um segmento de consumo recorrente. Ainda assim, o endividamento e o custo financeiro podem reduzir os recursos disponíveis para investimentos, expansão e modernização das lojas.

Do fast-food às franquias internacionais

A pressão chegou também ao setor de alimentação. O Grupo Gennius, responsável pelas redes Habib’s e Ragazzo, entrou com pedido de recuperação judicial em agosto, declarando um passivo inicial de R$ 265 milhões. A dívida total reconhecida pela empresa, porém, pode superar R$ 300 milhões.

O grupo atribuiu as dificuldades à combinação entre juros elevados, aumento dos custos dos fornecedores, inflação dos alimentos e investimentos feitos durante a expansão do negócio. A pandemia interrompeu o movimento das lojas, e a recuperação do consumo fora de casa foi mais lenta do que o esperado, em parte pela consolidação do trabalho remoto e pelo crescimento dos aplicativos de entrega.

A SouthRock, antiga operadora das marcas Starbucks e Subway no Brasil, também entrou em recuperação judicial. A empresa acumulou dívidas expressivas, perdeu os direitos de exploração das marcas e deixou de operar as franquias que administrava. A Casa do Pão de Queijo, tradicional rede presente em aeroportos e rodoviárias, igualmente aparece entre as empresas que buscaram proteção judicial para reorganizar suas contas.

Esses casos mostram que o problema não se limita às lojas de departamento. Restaurantes e redes de alimentação trabalham com margens pressionadas, custos de aluguel e mão de obra, além de uma forte dependência do fluxo de consumidores. Quando o movimento cai, a estrutura fixa permanece praticamente intacta.

Oi: da recuperação judicial à falência

A Oi representa um estágio mais avançado da crise corporativa. Depois de enfrentar dois longos processos de recuperação judicial, a empresa teve a falência decretada pela Justiça em agosto de 2026. A decisão abre uma nova etapa, marcada pela venda de ativos e pela tentativa de preservar a continuidade dos serviços de telecomunicações.

A operadora ainda possui ativos estratégicos, sobretudo em redes de fibra e infraestrutura de internet. O desafio agora é transferir ou vender esses ativos de maneira organizada, evitando que a liquidação da companhia cause interrupções para clientes e empresas que dependem da rede.

A trajetória da Oi evidencia a diferença entre recuperação judicial e falência. A recuperação oferece tempo para reorganizar a companhia; quando os planos não conseguem produzir uma solução sustentável, a Justiça pode determinar a liquidação do negócio.

Braskem enfrenta dívida de R$ 56 bilhões

A crise também alcançou a indústria pesada. A Braskem anunciou uma recuperação extrajudicial com dívidas estimadas em aproximadamente R$ 56 bilhões. A empresa enfrenta um cenário internacional de excesso de oferta de produtos petroquímicos, margens menores e demanda enfraquecida.

Além da pressão do setor, a companhia convive com as consequências financeiras e jurídicas do afundamento do solo em Maceió, associado à exploração de sal-gema. As indenizações e obrigações relacionadas ao desastre ampliaram o passivo e aumentaram a pressão sobre a estrutura de capital.

Gol já concluiu a etapa principal do Chapter 11

A Gol também aparece frequentemente nas listas de empresas brasileiras que precisaram de proteção judicial no exterior. A companhia entrou com pedido de Chapter 11 nos Estados Unidos em janeiro de 2024 para reorganizar dívidas, contratos de aeronaves e compromissos com fornecedores.

O processo, porém, não deve ser descrito como uma recuperação ainda iniciada em 2026. O plano foi efetivado em junho de 2025, embora o caso judicial residual permaneça aberto para questões administrativas e de credores. Durante a reestruturação, a empresa obteve compromisso de US$ 950 milhões em financiamento do tipo debtor-in-possession, destinado a manter as operações e financiar a reorganização.

Correios têm prejuízo preliminar de R$ 5,4 bilhões

Entre as empresas citadas, os Correios ocupam uma posição singular. A estatal registrou prejuízo preliminar de R$ 5,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, segundo dados de um balancete contábil obtidos pelo g1. As receitas permaneceram praticamente estáveis, enquanto as despesas caíram R$ 1,1 bilhão.

A redução dos custos, contudo, não foi suficiente para compensar o avanço das despesas financeiras, que subiram 179% e alcançaram R$ 1,6 bilhão. Os gastos com salários somaram R$ 5,2 bilhões, enquanto as despesas com provisões e perdas chegaram a aproximadamente R$ 1,6 bilhão.

A estatal também perdeu receita com encomendas internacionais, segmento afetado pelas mudanças no comércio eletrônico e pelo programa Remessa Conforme. Ao mesmo tempo, enfrenta a concorrência de empresas privadas de logística, que ampliaram a presença em entregas rápidas e no comércio digital.

Os Correios não seguem o mesmo caminho jurídico de uma empresa privada em dificuldade. Por serem uma empresa pública federal, não podem simplesmente pedir recuperação judicial nos mesmos termos de uma companhia privada. A solução depende de medidas de gestão, financiamento, reorganização operacional e decisões do governo controlador.

O fim das lojas físicas?

A sequência de pedidos de recuperação e fechamento de unidades alimenta a impressão de que o Brasil estaria diante de um colapso generalizado do varejo. A avaliação de especialistas, porém, é mais específica: não é o fim do comércio físico, mas o enfraquecimento de modelos de negócio que acumulam custos elevados e não conseguem acompanhar a transformação do consumo.

Lojas físicas continuam importantes para experiência, retirada de produtos, assistência e relacionamento com o consumidor. O que está mudando é sua função. Grandes áreas, estoques espalhados por centenas de unidades e estruturas pesadas precisam ser substituídos por operações mais integradas, com logística eficiente, presença digital e maior controle de custos.

A recuperação das empresas dependerá da capacidade de gerar caixa, renegociar dívidas e reconquistar fornecedores e consumidores. Algumas marcas conseguirão reduzir de tamanho e sobreviver. Outras poderão ser vendidas, incorporadas ou liquidadas. O que parece estar chegando ao fim não é o varejo, mas a ideia de que uma marca conhecida, por si só, é suficiente para garantir a sobrevivência de uma empresa.

Referências

[1] UOL — Brasil bate recorde de empresas em recuperação judicial em 2025

[2] g1 — Por que grandes redes de varejo estão fechando lojas e pedindo recuperação judicial

[3] Folha de S.Paulo — Casas Bahia pede à Justiça que BB devolva R$ 422 milhões

[4] O Globo — Habib’s, Casas Bahia, Grupo Toky: por que cresce a lista de empresas pedindo recuperação judicial

[5] CNN Brasil — De Braskem à Casas Bahia: veja principais pedidos de recuperação em 2026

[6] Kroll Restructuring Administration — GOL Linhas Aéreas Inteligentes S.A.

[7] g1 — Correios: balanço prévio aponta prejuízo de R$ 5,4 bilhões no primeiro semestre de 2026

Anúncio