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Fenômeno já apresenta anomalia de 1,8°C no Pacífico; NOAA prevê 81% de chance de um episódio muito forte entre outubro e dezembro, enquanto MS enfrenta alternância entre calor intenso, entradas de ar frio e baixa umidade

Calor de até 40°C em pleno inverno acende alerta no Pantanal

O inverno de 2026 vem apresentando um comportamento fora do padrão em Mato Grosso do Sul, especialmente na região de Corumbá. Em poucos dias, os termômetros podem sair de marcas próximas de 17°C para máximas superiores a 35°C, criando uma sensação de instabilidade que deve ganhar ainda mais importância com a aproximação da primavera.

O cenário ocorre justamente enquanto o El Niño avança para uma fase de maior intensidade. Segundo a atualização do Centro de Previsão Climática da NOAA, divulgada em 10 de agosto, a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 estava 1,8°C acima da média. A agência estima ainda 81% de probabilidade de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro e 97% de chance de persistência do fenômeno até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte.

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Isso não significa, porém, que cada onda de calor ou frente fria registrada em Corumbá seja causada diretamente pelo El Niño. No Centro-Oeste, a relação entre o fenômeno e o comportamento local do tempo é menos direta do que em outras regiões brasileiras. A nota técnica conjunta de INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM destaca que o Centro-Oeste não apresenta correlação elevada com episódios de El Niño ou La Niña, mas aponta tendência de temperaturas mais altas, sobretudo na primavera e no verão, além de maior risco de redução da umidade e incêndios.

É justamente essa combinação entre o fenômeno de grande escala e os sistemas atmosféricos que atuam sobre o continente que ajuda a explicar por que o Pantanal pode enfrentar períodos de calor muito intenso mesmo durante o inverno.

O que está acontecendo em Corumbá?

A oscilação observada pelos moradores — dias muito quentes seguidos por quedas acentuadas de temperatura — está ligada principalmente à alternância entre bloqueios atmosféricos, massas de ar quente e incursões de ar frio vindas do sul do continente.

Quando uma massa de ar polar avança pela região, a temperatura pode cair rapidamente. Depois que essa massa perde força e se desloca, sistemas de alta pressão podem voltar a favorecer céu aberto, forte insolação e aquecimento rápido da superfície.

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É nesse intervalo que Corumbá, localizada no extremo oeste de Mato Grosso do Sul e inserida no contexto climático do Pantanal, pode registrar temperaturas muito elevadas.

A situação atual é reforçada pelo novo veranico que começou nesta quarta-feira (12). Segundo previsão divulgada nesta quarta, o episódio deve manter temperaturas acima da média em várias áreas do Centro-Oeste até aproximadamente 19 de agosto, com máximas que podem alcançar ou superar 40°C em partes de Mato Grosso do Sul.

Portanto, a sensação de que o inverno está alternando rapidamente entre frio e calor extremo não é apenas uma impressão: a atmosfera está passando por mudanças rápidas de padrão.

Por que o El Niño preocupa Mato Grosso do Sul?

O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial ficam anormalmente mais quentes. Esse aquecimento modifica a circulação atmosférica e a distribuição de calor e umidade, produzindo efeitos diferentes de acordo com a região.

Para Mato Grosso do Sul, o principal ponto de atenção não é simplesmente “vai chover menos” ou “vai fazer mais calor”. O problema está na maior possibilidade de extremos e irregularidade.

A previsão climática elaborada pelo Cemtec/MS já indicava, para o trimestre de inverno, temperaturas ligeiramente acima da média e chuvas irregulares, além da possibilidade de o El Niño evoluir para intensidade forte ou muito forte ao longo do segundo semestre.

O painel nacional sobre o fenômeno também aponta alta probabilidade de temperaturas acima da média durante o segundo semestre, condição capaz de favorecer ondas de calor e aumentar o risco de incêndios florestais.

O risco maior está na combinação de calor, seca e baixa umidade

Em Corumbá, o calor isoladamente já representa um desafio. O problema aumenta quando ele aparece acompanhado de baixa umidade, pouca chuva e vegetação seca.

O final do inverno e a primavera são períodos naturalmente críticos para o Pantanal. Com temperaturas elevadas, a umidade relativa do ar tende a diminuir e a vegetação perde água mais rapidamente.

A própria Semadesc já havia alertado que a combinação de temperaturas elevadas, baixa umidade e redução das chuvas durante o inverno cria condições favoráveis à propagação de incêndios florestais.

Para Corumbá, isso tem uma dimensão ainda maior. A cidade está diretamente ligada ao Pantanal e pode sofrer com a fumaça transportada de áreas atingidas por queimadas, além dos impactos sobre propriedades rurais, fauna, turismo e atividades econômicas.

E as chuvas? O cenário não é igual em todo o MS

Um ponto importante é evitar a interpretação de que o El Niño produzirá exatamente o mesmo efeito em todo Mato Grosso do Sul.

A nota técnica nacional mostra que o comportamento do Centro-Oeste pode variar bastante. Em episódios fortes de El Niño, observações históricas indicam possibilidade de chuvas mais regulares e volumes significativos durante o verão e o outono em Mato Grosso do Sul, enquanto outras áreas do Centro-Oeste podem apresentar maior irregularidade.

Isso significa que o período mais crítico para Corumbá pode ser marcado, inicialmente, por calor, baixa umidade, risco de fogo e irregularidade das chuvas, enquanto a evolução posterior dependerá da interação entre El Niño, circulação atmosférica regional, sistemas de chuva e condições da própria bacia do Pantanal.

Por isso, previsões sazonais não devem ser interpretadas como uma sentença de seca permanente para a cidade.

O que pode acontecer nos próximos meses?

A tendência mais importante é que o calor ganhe força à medida que o inverno termine e a primavera avance.

A NOAA aponta que o El Niño deve se fortalecer até o fim de 2026, com possibilidade de atingir uma categoria muito forte entre outubro e dezembro.

Para Corumbá e o oeste de Mato Grosso do Sul, isso pode significar:

  • mais episódios de calor acima do normal;
  • períodos prolongados de baixa umidade;
  • maior demanda por água;
  • aumento do risco de incêndios no Pantanal;
  • piora da qualidade do ar durante episódios de fumaça;
  • maior estresse para animais e vegetação;
  • impactos sobre atividades rurais e turismo;
  • alternância entre períodos extremamente quentes e entradas de ar frio.

A intensidade exata desses efeitos, entretanto, dependerá da evolução do fenômeno e dos sistemas atmosféricos que atuarem sobre a região.

O que essa mudança brusca de temperatura provoca na população?

O corpo humano precisa ajustar continuamente sua temperatura interna. Em dias muito quentes, aumenta a perda de líquidos e o esforço necessário para dissipar calor. Em episódios de frio, ocorre uma resposta diferente do organismo.

Por isso, mudanças rápidas entre temperaturas muito altas e baixas podem aumentar o desconforto e agravar problemas de saúde preexistentes, principalmente quando também há ar seco e poluição por fumaça.

Durante ondas de calor, os principais riscos são desidratação, exaustão pelo calor e agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias. O Ministério da Saúde destaca atenção especial para crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças cardíacas, respiratórias, renais ou outras condições crônicas.

A fumaça acrescenta outro problema. As partículas provenientes de queimadas podem irritar as vias respiratórias e agravar quadros respiratórios e cardiovasculares. O Ministério da Saúde recomenda reduzir a exposição à fumaça e, quando for necessário sair de ambientes protegidos em áreas afetadas, utilizar proteção respiratória adequada, como máscaras N95 ou PFF2.

Como a população de Corumbá pode se proteger

Nos períodos de calor intenso e baixa umidade, algumas medidas simples reduzem os riscos:

Beba água regularmente, mesmo sem esperar a sede aparecer. A necessidade varia conforme idade, atividade física, alimentação e condições de saúde, portanto não é adequado estabelecer uma quantidade fixa para todas as pessoas.

Evite atividades físicas intensas nos horários mais quentes, principalmente quando a umidade estiver muito baixa.

Prefira ambientes frescos e ventilados e reduza a exposição direta ao sol durante os períodos de maior calor.

Use roupas leves e respiráveis durante os dias quentes.

Quando houver fumaça intensa, reduza a permanência ao ar livre, mantenha portas e janelas fechadas sempre que isso ajudar a impedir a entrada da fumaça e acompanhe as orientações das autoridades de saúde.

Pessoas que fazem tratamento contínuo devem manter seus medicamentos conforme a prescrição médica e procurar atendimento diante de sintomas diferentes ou agravados.

Quando procurar atendimento

Durante períodos de calor extremo, a população deve ficar atenta a sintomas como tontura, fraqueza, dor de cabeça, náusea, cãibras e transpiração excessiva, que podem indicar problemas relacionados ao calor e à desidratação. O Ministério da Saúde orienta procurar atendimento de saúde diante desses sinais.

Em situações envolvendo fumaça, falta de ar, piora importante de sintomas respiratórios ou outros sinais intensos também exigem avaliação médica. Crianças pequenas, idosos e gestantes merecem atenção redobrada.

O alerta para Corumbá vai além da temperatura

O principal efeito do El Niño para Corumbá não deve ser observado apenas no número mostrado pelo termômetro.

O que preocupa é a possibilidade de uma sequência de calor intenso + baixa umidade + vegetação seca + chuvas irregulares, combinação capaz de aumentar a pressão sobre o Pantanal e sobre a população.

A cidade também está inserida em uma região cuja economia possui forte relação com o Pantanal, pecuária, turismo, navegação e atividades ligadas ao rio Paraguai. Mudanças persistentes no regime de chuva e temperatura podem repercutir nesses setores, especialmente se períodos de estiagem se prolongarem.

Ao mesmo tempo, o cenário não permite afirmar que Corumbá terá uma seca contínua ou que todos os meses serão mais quentes. O próprio monitoramento oficial ressalta que os efeitos do El Niño variam regionalmente e dependem da interação entre oceano e atmosfera.

O que muda daqui para frente

O dado mais importante neste momento é que o fenômeno já está estabelecido e ganhou intensidade rapidamente. A temperatura de 1,8°C acima da média na região Niño 3.4 coloca o El Niño em uma trajetória de fortalecimento, enquanto a NOAA calcula 81% de probabilidade de um episódio muito forte no último trimestre de 2026.

Para Corumbá, isso significa que o comportamento do clima deve ser acompanhado com atenção especial durante a primavera. O calor que já aparece em pleno inverno pode se tornar mais frequente, mas os efeitos concretos sobre chuva, umidade e incêndios dependerão da evolução das condições atmosféricas sobre o Centro-Oeste.

No Pantanal, portanto, a questão central para os próximos meses não será apenas quanto a temperatura vai subir, mas como calor, umidade, chuva e fogo irão interagir em uma região especialmente vulnerável aos extremos climáticos.

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